2 de setembro de 2014

“Elas também são minhas filhas...”

 

Ela acaricia as plantas como se fizesse um carinho nas filhas. E vai falando com voz mansa, pausada, o olhar firme, envolvida em lembranças.

 

Quem diz que dona Augusta tem 91 anos? Ninguém. Com toda essa lucidez e bom-humor, quando há tantos carrancudos já aos 30, esquecidos aos 50 e depressivos, imóveis, vendo o mundo passar diante da janela, aos 70?

Isto não acontece com dona Augusta. Augusta Rosa da Conceição Freitas, para fazer justiça ao tempo dos nomes compostos e extensos sobrenomes. Doenças? Nenhuma das enfermidades crônicas que infernizam a maioria na terceira idade. Claro, há as rugas e cabelos de neve, marcas naturais que ela carrega com lucidez e entusiasmo no corpo frágil mas enérgico, como condecorações honrosas do tempo.

##120@@

 O segredo? Pode ser o carinho dos cinco filhos, todos morando na mesma São Paulo, a dedicação de Meg, a cachorrinha que é pura festa a cada instante. Mas não é só. Há também as plantas, que Augusta cultiva com permanente carinho no pequeno terraço de seu apartamento, onde mora com a filha Maria Ovídia - Vidinha. Suas plantas retribuem com viço e perfume invejáveis. E ela acaricia cada uma e confirma: “Elas também são minhas filhas...”

Mas há outras retribuições. Com vasilhame para água que instalou no minúsculo jardim, Augusta atraiu beija-flores e outros pássaros que todos os dias retribuem a gentileza com revoadas e cânticos. “Às vezes parece um concerto natural”, afirma uma de suas vizinhas que se encanta com a beleza.

Há plantas que são fragmentos vivos de um álbum que emociona. Algumas delas relatam amizades profundas de amigas ou parentes que já foram. Mas sobrevivem ainda neste verde, nestas cores, nas vozes das lembranças que Augusta houve cada manhã, quando lhes dedica o primeiro carinho. É o caso de Maritinha, uma viçosa árvore da felicidade. Augusta recebeu a planta como um tipo de herança da amiga que partiu há dez anos.

É também a história de Helena, a renda portuguesa que ela conserva há vinte anos. Diferenciadas de todas as demais, Augusta fala com elas. Talvez relembre segredos e demonstrações de fraternidade que não morrem. Um contraste marcante na grande cidade onde pressa e ruídos do progresso afastam amigos e murcham no coração apelos de contato humano.

Esse caso de amor vegetal vem de muito longe. Augusta lembra que sua mãe cultivava uma roseira que ficava à porta da casa onde viviam, em Araraquara, interior de São Paulo. Houve um ano, em que a planta ficou excepcionalmente carregada de flores. “Foi quando minha mãe morreu”, recorda Augusta, que tinha na época treze anos. “Lembro-me bem... Colocamos todas as flores da roseira que mamãe amava no caixão dela”, conclui Augusta emocionada. – Ivo Santos Cardoso.

Patrocinio





Recado
Anjos de um minuto
Ele avançou com dificuldade e, então, percebeu. A mulher seguia ao lado

Somando forças
Um ano cheio de surpresas, este que deixamos para trás. A natureza em fúria deixou penosas lembranças

Cumpra sua lista. Sempre há tempo
Novo ano. Sempre é hora de revisar comportamentos e tomar rumo certo

Quando pensar faz mal
Às vezes surpreendo as pessoas afirmando que pensar racionalmente

© 2014 Vidaintegral Ltda.