Ócio na Terceira Idade
Dr. Luiz Freitag
A palavra “ócio”, freqüentemente evoca uma série de significados negativos, como preguiça, debilidade, negligência, desocupação. Por outro lado, traz o sentido de lazer, trabalho mental suave e repouso. A idéia do “otium cum dignitate”, ou seja, o lazer com dignidade, vem desde Cícero, o ilustra estadista e orador romano, referindo-se a esse privilégio das pessoas da nobreza, quando já afastadas da vida pública.
Podemos então afirmar que desde os anos 40 aC já havia a preocupação com o tempo livre. Atravessamos vários séculos e chegamos à época do florescimento da indústria, trazendo uma revolução nas relações do trabalho e nos seus direitos, como férias, gratificações e proventos de aposentadoria. O filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970) no seu livro Elogio do Ócio afirma que “uma das coisas mais difíceis de utilizar é o ócio”.
Domenico De Masi, o polêmico sociólogo italiano escreveu em fins do século XX (1995) uma obra denominada O Ócio Criativo, fazendo a apologia do lazer para o terceiro milênio. Suas idéias vêm sendo comentadas e questionadas na mídia e opinião pública. De Masi propõe o ócio cultural para a terceira idade, desfrutando o tempo livre em viagens, erotismo, estética, repouso, ginástica, meditação e reflexão.
Assistir mais ao pôr-do-sol e ao nascer da lua e balançar-se numa rede, sem hora marcada. Prestar mais atenção às coisas de todo dia, em geral lindas, que não são apreciadas com a atenção que merecem. Tudo muito bonito, mas ainda utópico. Ótimo. Perfeito. No Brasil só se pode perguntar: “Mas quem paga a conta?”
Em muitas situações, os aposentados, maiores detentores do tempo livre, ficam defasados no seu próprio sustento. Grande parte do orçamento vai para a compra de remédios ou para o auxilio à própria família.
Esta proposição do professor De Masi seria indicada no Brasil para os aposentados abonados. Não podemos, entretanto, nos tornar pessimistas quanto à concretização de uma vida melhor. Há muitas alternativas para a maioria dos idosos aproveitar seu tempo livre, mesmo com limitações de saúde ou financeiras. Pode ler o livro que sempre quis, fazer um trabalho manual, pintar, bordar, cozinhar um prato especial, ir a festas, dançar, jogar conversa fora, o que não representa muita despesa.
As atividades prazerosas e criativas tendem a melhorar a qualidade de vida, mas nem sempre trazem a felicidade, porque esta só pode ser encontrada dentro de nós mesmos. Não devemos nos iludir e pensar que só os que têm altos cargos, títulos acadêmicos, honrarias, mansões luxuosas, roupas caras, dinheiro sobrando, são os mais felizes.
Quem sabe devemos apreciar com mais intensidade a lua, o pôr-do-sol e o sorriso de uma criança? Esses prazeres são gratuitos. Encare a vida como um banquete. Você receberá a sua devida porção quando chegar a sua vez. É o que nos diz o filósofo Epíteto em sua Arte de Viver.
O Dr. Luiz Freitag é geriatra em São Paulo, co-fundador da seção São Paulo da Sociedade Brasileira de Geriatria. lvfreita@uol.com.br