25 de outubro de 2014

Aposentadoria e estresse

 

Dr. Luiz Freitag

A tensão na pessoa idosa aposentada poderá resultar da solidão a que ela ficar relegada, como da insegurança emocional e econômica ou, pior ainda, da perda do sentido de continuar existindo tanto para si como para os outros.

De cada 100 mulheres acima de 65 aos, a metade é constituída por viúvas assim como 25% dos homens se encontram na mesma situação. Pode-se imaginar o que isso significa para ambos, que sempre tiveram um companheiro ou companheira por anos a fio e, de uma hora para outra, ficam sozinhos.

A ansiedade que ocorre nessas pessoas pode modificar profundamente o seu comportamento, até fantasiando períodos passados que talvez não tenham sido tão brilhantes como são contados agora, pois já não existe quase ninguém para contestá-los. Como bem disse a atriz e escritora francesa Simone Signoret, em seu livro “A nostalgia não é mais o que era”.

Muitas vezes podem acontecer momentos de pânico com a sensação de morte. A insônia pode ser uma característica desta fase,com o medo de adormecer e não mais acordar, ou a sensação de que o pulso parou de repente, como nos hipocondríacos. São aqueles que supõem ter todas as doenças possíveis, apresentando queixas tão bem encadeadas que podem confundir o médico. Sintomas e fantasias são mesclados para despertar a atenção de quem estiver próximo, tentando fixar-se a alguém ou ao próprio médico. Geralmente estas fantasias encobrem fracassos passados na profissão ou no casamento.

Quanto mais os anos passam, mais o indivíduo se identifica com ele mesmo, já explicava  Stieglitz, famoso geriatra do século passado, em seu compêndio de Medicina Geriátrica: “Os avarentos ficam mais avarentos, os generosos ficam mais pródigos, os beatos tornam-se fanáticos intoleráveis e obstinados em suas crenças, o compreensivo fica mais tolerante, o radical, mais radical, e o conservador, mais conservador”.

Outra causa comum de tensão é o drama dos choques entre gerações, cada vez mais freqüentes e incompreensíveis. É muito grave a perda cada vez maior da importância dos avós no seio familiar. Já não existe mais a Casa Grande patriarcal de Gilberto Freyre, tão bem descrita em “Casa Grande e Senzala”, onde havia confraternização entre todos. O apartamento (ou seria apertamento?) atual veio criar mais um problema: “Onde vão ficar os velhos”? Quando só o avô ou a avó estão vivos é que piora a situação. Ou são mandados para uma chamada Casa de Repouso, ou são aquinhoados com as atenções mais servis, com o pensamento na futura herança a ser deixada, quando é possível.

Outro motivo bastante relevante é o da aposentadoria, muitas vezes precoce, ou mesmo quando ocorre numa idade em que a pessoa poderia produzir ainda muito. A não ser que esse indivíduo já tenha se preparado bem antes de se aposentar, fazendo mudanças construtivas com novos interesses e amizades, as tensões provocarão reações depressivas de longa duração e que necessitam de tratamento logo nos primeiros sintomas. A aposentadoria poderá se tornar um bem quando a pessoa descobrir novos valores ou desenvolver aquela atividade que nunca pôde realizar devido ao seu horário rigoroso de trabalho.

Para outros a aposentadoria poderá ser o caos, o abandono, a sensação de não ser mais apreciado ou respeitado. Quando era o chefe, ele era insubstituível, era aquele que todos respeitavam e agora, afastado, perdeu a autoridade. Para compensar, em casa tornou-se um tirano, pesquisando imperfeições nos cantos da casa, briga com a esposa, os filhos, os netos, o cachorro, chegando até a provocar separações e divórcios. Infelizmente há muitos desses indivíduos que não tiveram olhos para ver além, para enxergar o mundo fora das paredes do seu escritório.

E quanto ao sexo? A diminuição da libido (desejo sexual) piora mais com esta perda de auto-estima, em que muitas vezes nem mesmo os medicamentos para disfunção erétil funcionam. É necessário que quando a pessoa estiver prestes a se aposentar que entenda que não está perdendo alguma coisa, mas sim está se preparando para algo até melhor. Que essa aposentadoria irá propiciar, por exemplo, que cuide de si próprio.

 

Dr. Luiz Freitag é Médico Geriatra, autor do livro Como Transformar a Terceira Idade na Melhor Idade. lvfreita@uol.com.br

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